sexta-feira, 8 de junho de 2012

Indicações reais e fictícias para a cesariana

A cesariana sem necessidade é uma epidemia no Brasil. As gestantes sofrem com a  falta de informação e sobra de inocência em acreditar em tudo o que o médico diz sem ao menos pesquisar ou procurar uma segunda opinião. A conveniência de alguns médicos, infelizmente a maioria deles, e a falta de preparo para acompanhar um parto normal colaboram com este quadro.
O número de mulheres que se submetem a cesárea para o nascimento dos seus filhos é muito grande no nosso país e bem além do que seria aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
A médica obstetra Melania Amorim mantém uma lista sempre atualizada dessas indicações. 
Se prepara que a parte de indicações falsas é ENORME!
Segue o texto e a lista:



A presente lista de indicações de cesariana circula na Internet desde 2005, quando eu publiquei a primeira versão em uma comunidade do Orkut ("Cesárea? Não, obrigada!"), e desde então tem sido amplamente divulgada, crescendo lamentavelmente a cada dia, porque estou sempre me deparando com gestantes querendo esclarecimentos ou mulheres que contam suas próprias histórias ou histórias de amigas. 

Recentemente, Ana Cristina Duarte, obstetriz e amiga, fez alguns acréscimos e organizou a lista em ordem alfabética, motivo pelo qual lhe dou os créditos da presente versão. É de domínio público, usem à vontade, mas preferentemente remetendo à fonte, ou seja, Amorim & Duarte (2012), com link para esta página da Web.

Não temos a pretensão de cobrir todas as possíveis indicações de cesariana, apenas começamos a elencar sobretudo as "não indicações" mais frequentes.

Para uma leitura mais aprofundada e baseada em evidências, eu recomendo a série de artigos que publicamos na revista Femina, "Indicações de Cesariana Baseadas em Evidências", em três partes:

Parte 1 Indicações de Cesariana Baseadas em Evidências - Parte 1 

Parte 2 Indicações de Cesariana Baseadas em Evidências - Parte 2

Parte 3 Condições frequentemente associadas à Cesariana sem respaldo científico

Segue a lista (em constante atualização):



INDICAÇÕES REAIS E FICTÍCIAS PARA A CESÁREA

Algumas indicações de cesariana

REAIS

1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;

2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;

3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);

4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);

5) Ruptura de vasa praevia;

6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto.


PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA

1) Desproporção cefalopélvica (o diagnóstico só é possível intraparto, através de partograma e não pode ser antecipado durante a gravidez);

2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "freqüência cardíaca fetal não-tranqüilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);

3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia), ultrapassando a linha de ação do partograma.

SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO

1) Apresentação pélvica (recomenda-se a versão cefálica externa com 37 semanas mas se não for bem sucedida, discutir riscos e benefícios com as gestantes: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);

2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia);

3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.


Algumas desculpas utilizadas pelos profissionais para realizar uma DESNEcesárea (em ordem alfabética)

1.   Abdominoplastia prévia
2.   Aceleração dos batimentos fetais
3.   Adolescência
4.   Ameaça de chuva/temporal na cidade
5.   Anemia falciforme
6.   Anemia ferropriva
7.   Anencefalia
8.   Artéria umbilical única
9.   Asma
10. Assalto ou outras formas de violência (gestante ou familiar foi vítima de assalto, então o bebê pode ficar estressado)
11. Bacia "muito estreita" 
12. Baixa estatura materna 
13. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso 
14. Bebê alto, não encaixado antes do início do trabalho de parto
15. Bebê profundamente encaixado 
16. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto 
17. Bebê "grande demais" (macrossomia fetal só é diagnosticada se o peso é maior ou igual que 4kg e não indica cesariana, salvo nos casos de diabetes materno com estimativa de peso fetal maior que 4,5kg. Não se justifica ultrassonografia a termo em gestantes de baixo risco para avaliação do peso fetal). 
18. Bebê "pequeno demais" 
19. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe) 
20. Calcificação da sínfise púbica (alegando-se que ocorreria em TODAS as mulheres com mais de 35 anos, impedindo o parto normal)
21. Candidíase
22. Cardiopatia (o melhor parto para a maioria das cardiopatas é o vaginal) 
23. Cesárea anterior 
24. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma 
25. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso) 
26. Cirurgia gastrointestinal prévia 
27. Colestase gravídica 
28. Coleta de sangue do cordão umbilical para congelamento e preservação de células-tronco
29. Colo grosso, colo posterior, colo duro, colo alto e (paradoxalmente) colo curto
30. Colostomia 
31. Conização prévia do colo uterino 
32. Constipação (prisão de ventre) 
33. Cálculo renal 
34. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas (incluindo aniversário do obstetra) 
35. Datas significativas como 11/11/11 ou 12/12/12 (ainda bem que a partir de 2013 precisaremos esperar o próximo século) 
36. Diabetes mellitus clínico ou gestacional 
37. Diagnóstico de desproporção cefalopélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto e antes da dilatação de 8 a 10 cm
38. Dorso à direita, dorso posterior, ou dorso em qualquer outro lugar
39. Edema de membros inferiores/edema generalizado 
40. Eletrocauterização prévia do colo uterino 
41. Endometriose em qualquer grau e localização 
42. Epilepsia e uso de qualquer droga antiepiléptica
43. Escoliose 
44. Espondilite anquilosante – Qualquer espondiloartropatia
45. Estreptococo do Grupo B (EGB) no rastreamento com cultura anovaginal entre 35-37 semanas
46. Exérese prévia de pólipos intestinais por colonoscopia 
47. Falta de dilatação antes do trabalho de parto
48. Feto com "unhas compridas" 
49. Feto morto 
50. Fibromialgia 
51. Fratura de cóccix em algum momento da vida 
52. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come) 
53. Gestação gemelar com os dois conceptos, ou o primeiro, em apresentação cefálica 
54. Gravidez não desejada 
55. Grumos no líquido amniótico 
56. HPV (só há indicação de cesárea se há grandes condilomas obstruindo o canal de parto) 
57. Hemorroidas 
58. Hepatite B e hepatite C 
59. Hiperprolactinemia 
60. Hipertireoidismo 
61. Hipotireoidismo 
62. História de cesárea na família 
63. História de câncer de mama ou câncer de mama na gravidez 
64. História de depressão pós-parto 
65. História de natimorto ou óbito neonatal em gravidez anterior 
66. História de trombose venosa profunda 
67. História familiar de fibrose cística do pâncreas
68. Idade materna "avançada" (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos) 
69. Incisura nas artérias uterinas (pesquisada inutilmente, uma vez que não se deve realizar dopplervelocimetria em uma gravidez normal) 
70. Infecção urinária 
71. Inseminação artificial, FIV, qualquer procedimento de fertilização assistida (pela ideia de que bebês "superdesejados" teriam melhor prognóstico com a cesárea) - motivo pelo qual esses bebês aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal 
72. Insuficiência istmocervical (paradoxalmente, mulheres que têm partos muito fáceis são submetidas a cesarianas eletivas com 37 semanas SEM retirada dos pontos da circlagem) 
73. Laparotomia prévia 
74. Líquido amniótico em excesso
75. Magreza da mãe
76. Malformação cardíaca fetal 
77. Mecônio no líquido amniótico (só indica cesariana se houver associação com padrões anômalos de frequência cardíaca fetal, sugerindo sofrimento fetal)
78. Mioma uterino (exceto se funcionar como tumor prévio) 
79. Miscigenação racial (pelo "elevado risco" de desproporção céfalo-pélvica) 
80. Neoplasia intraepitelial cervical (NIC) 
81. Obesidade materna
82. Obstetra (famoso) não sai de casa à noite devido aos riscos da violência urbana 
83. Paciente “não tem perfil para parto normal”
84. Paciente “não ajuda para o parto normal” (momento vidente ON: “no fundo ela quer cesárea”)
85. Parto "prolongado" ou período expulsivo "prolongado" (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra). O diagnóstico deve se apoiar no partograma. O próprio ACOG só reconhece período expulsivo prolongado mais de duas horas em primíparas e uma hora em multíparas sem analgesia ou mais de três horas em primíparas e duas horas em multíparas com analgesia. Na curva de Zhang o percentil 95 é de 3,6 horas para primíparas e 2,8 horas para multíparas) 
86. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas) 
87. Perineoplastia anterior
88. Pé nas costelas
89. Pé torto congênito
90. Placenta grau III ou II ou I ou qualquer outra classificação
91. Plaquetas baixas não oclusivas do colo do útero
92. Possível falta de vaga em maternidade para um parto normal, caso a gestante não marque a cesárea
93. Pouco líquido no exame ultrassonográfico (sem indicação no final da gravidez em gestantes normais)
94. Praticar musculação ou ser atleta 
95. Pressão alta 
96. Pressão baixa 
97. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia, grande miopia e descolamento da retina 
98. Profissão professora
99. Prolapso de valva mitral 
100.  Qualquer malformação fetal incompatível com a vida 
101.  Qualquer procedimento cirúrgico durante a gravidez 
102.  Reação vasovagal
103.  Sedentarismo 
104.  Septo uterino/cirurgia prévia para ressecção de septo por via       histeroscópica
105.  Ser bailarina 
106.  Suspeita ecográfica de mecônio no líquido amniótico 
107.  Síndrome de Down e qualquer outra cromossomopatia 
108.  Síndrome de Ovários Policísticos (SOP)
109.  Tabagismo 
110.  Trabalho de parto prematuro 
111. Tricomoníase
112.  Trombofilias 
113. Trombose venosa profunda
114.  Varizes uterinas 
115.  Uso de antidepressivos ou antipsicóticos 
116. Uso de aspirina
117.  Uso de heparina de baixo peso molecular ou de heparina não fracionada 
118.  Útero bicorno
119. Vaginose bacteriana
120.  Varizes na vulva e/ou vagina

Até mais!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Um parto "surpresa".


A Flávia é de Brasília eu a conheci pelo twitter faz mais ou menos uns 2 ou 3 anos, não sei bem ao certo. Depois de um tempo tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente em um jantar entre amigas (do twitter hehe) que fomos quando passamos alguns dias de férias em Brasília.
Foi maravilhoso conversar com ela! Ela já tinha tido uma bebê de parto natural hospitalar e eu lembro bem ela falando que queria sim outro filho, mas dessa vez ela teria o bebê em casa :).
Ela engravidou e estava preparada para um parto domiciliar, com uma equipe de enfermeiras obstétricas e doula. Mas ela teve uma surpresa! Leiam o relato e se emocionem, porque eu me emocionei muito!!!

Manhã de uma quarta-feira, eu com 39 semanas e 5 dias de gestação, acordei às 8h e pouco... Por volta de 8:30h, após uma passadinha no banheiro, liguei para a parteira informando, numa ligação calma e eu falando baixo pra não acordar minha filhotinha (1 ano e 10 meses), que havia sinal de sangue na calcinha, mas ainda nenhum sintoma. Enviei em seguida (às 08:50h) uma mensagem à doula, escrita o seguinte: “Bom dia! Calma, ainda não estou sentindo nada, rs! Mas hj algo dentro de mim acordou diferente! Talvez seja hj o parto, durante o dia eh mais tranquilo vc voltar na hora que eu avisar pra valer, ne? Hehe! Tive o tal sinal de sangue! Ou seja, dilatando estou... Vou observar e volto a te avisar! Beijoss!!”. - - pausa: no primeiro parto, o sinal que tive também foi de sangue, sem sintomas, e entre esse primeiro sinal e o expulsivo, um intervalo de 6 horas (a equipe já conhecia essa história de ter sido sem sintomas). despausa - -  Então me troquei, penteei o cabelo, fiz toda a rotina matutina e resolvi voltar pra cama, pensando: vai que esse trem evolui no fim do dia e entra madrugada a dentro, melhor tentar descansar até minha filhinha acordar (pensei que esse parto, totalmente natural, poderia ser mais demorado, pois no primeiro parto tive ocitocina sintética).  Voltei para a cama, sentei na beiradinha, e veio uma emoção de repente (um frio na barriga que meu bebê dava o primeiro sinal que estava chegando) que durou meio segundo, pois logo controlei (até parece que eu já senti que precisaria assumir o controle da situação sozinha), deitei ao lado da minha filha. Mas não consegui dormir de novo! Começaram a vir cólicas (achei também que poderiam ser intestinais, não era nada nítido ainda) que começavam e paravam, então associei com contração; mas não sentia a contração em si, reparei bem na barriga e ela não ficava com formato de contração nem dura! As cólicas vinham e iam, mas sem regularidade, entre 8min e 10min, até 15min. E então ficou desconfortável ficar deitada e levantei!

Enviei outra mensagem à doula, que tinha me mandado uma mensagem pedindo pra avisar quando eu começasse a sentir cólica ou dor lombar, e disse que estava com cólicas que intensificavam e paravam, e que tinha combinado com a parteira pra ela vir depois do almoço me ver... eram quase 10h... Minha filha acordou e, ao pegá-la da cama no colo: plaft, minha calcinha e short molharam! Pensei “é a bolsa”, mas pensava que tivesse sido uma ruptura parcial, pois não chegou a molhar minha perna, muito menos o chão! Então deitei minha filha no trocador e a arrumei como de costume... Meu pai estava chagando em casa da corrida, fui até a beira da escada com minha filha no colo e o chamei pra ajudar com uma cortina, conversei brevemente sobre a ajuda que queria. Enquanto ele não vinha, sentei e amamentei minha filha, oferecendo seu desjejum! Em seguida ele veio ao meu quarto e começamos medir no teto, a cortar o tecido, eu subi num banquinho pra ajudá-lo a pendurar a cortina... Minha mãe veio ao meu quarto e perguntou se estava tudo bem, eu disse que sim... meu pai saiu do quarto e desceu pra buscar materiais, voltou e terminou de prender a cortina.. eu fui terminando de pentear filhotinha e arrumar a cama (meu pai ajudou a terminar de puxar o edredom e saiu do quarto)!

Nesse momento a coisa começou a mudar de figura! Comecei a sentir contrações mesmo (não apenas só cólica que já estava incomodando, desconcentrando de outras atividades), comecei a não apenas dar pausa na fala e respirar, comecei a agachar durante a contração! Fui até a sala pegar o telefone fixo, e ali comecei a perder o senso muito racional, não queria mais estar tentando fazer outras coisas, queria me conectar com meu corpo, minhas contrações, mas precisava me comunicar, avisar às pessoas, ligar para a parteira, para a doula, sentia que precisava arrumar o “ninho” pro parto... e a alternância entre tentar falar ao telefone, pausar pra contração, tentar digitar mensagem de texto na outra mão, e pausar pra contração, e começar a ficar aflita pois a coisa estava apertando e eu queria a equipe e queria estar amparada, e me auto-controlava (pela segunda vez veio um sentimento de frio na barriga, de querer desesperar, mas durou frações de segundos), e me auto-doulava (pensava: relaxa os ombros durante a contração, deixa despencar o maxilar pra ajudar a relaxar  o períneo), e ficava de joelhos no sofá, ou de cócoras no chão, alternando a posição nas contrações, obedecendo o que meu corpo pedia, e a cada contração cantarolava pra mim mesma, bem baixinho, sem letra, só um som, uma melodia que embalava nosso momento – meu, do meu bebê que estava prestes a nascer e da minha filha, que observava silenciosamente cada movimento meu, e com uma cumplicidade no olhar, me abraçava pelas costas a cada vez que eu agachava no chão, a cada contração, tornando meu TP no momento mais lindo de se viver!

E ao conseguir falar com a parteira, e enviar a mensagem à doula (às 10:30h: “to tentando te ligar.. a coisa apertou aqui! A parteira ta vindo me ver agora!”), voltei ao quarto! E fiquei ali, aguardando que chegassem.. Marido ligou, eu já tinha conversado mais cedo com ele que tínhamos sinais de parto naquele dia, mas tinha pedido que fosse ao shopping ainda comprar um leitor de cartão pra mim e buscar o resultado de um exame.. Mas antes de ir, me ligou nesse momento e eu só numa frase: “vem pra cá que apertou!” Era tudo que dava tempo de dizer no intervalo de contração, rs!

Continuava a cantarolar serenamente, suavemente, bem baixinho, continuava a procurar o chão a cada contração, já ficava de joelhos e cotovelos apoiados no chão, continuava a suavemente balançar o quadril na minha música, com o carinho da minha filhinha sempre ali!

Marido chegou em 3 minutos e me viu no quarto nessa posição, quase de sapinho no chão, me deu um beijo na cabeça! Eu disse a ele “puxa a lona e enche a banheira”! - - pausa: já tínhamos pré-preparado o cenário para o parto. O plano inicial era parir na água, então já tinha uma piscina inflada no meu quarto, apoiada em pé na parede; tínhamos cortado uma lona plástica no tamanho da área da piscina também, pra não molhar o piso de madeira, e enrolado no jeito só pra puxar a lona e deitar a piscina; a mangueirinha no chuveiro já instalada com a distância pra chegar à piscina! Ou seja, era só encher de água! Despausa  - - (Nesse meio tempo, meu pai voltou ao quarto, sei lá porque, acho que pra ver se tinha acontecido alguma coisa, imagino que ele tenha notado meu marido chegando apressado, pois meu pai estava lá fora quando ele chegou.) Assim que terminou a contração em seguida a essa frase, eu disse “peraí, vou ao banheiro!” e num pulo saí da posição de sapinho no chão do quarto pra dentro do banheiro! 

Sentei no vaso já pensando “ai meu Deus, sei que essa sensação é mininu saindo, porque espreme o reto” mas pensei simultaneamente “puxa, eu já estava com vontade de ir ao banheiro cedinho, eu vou conseguir fazer antes de parir” (afinal, ninguém da equipe tinha chegado ainda, não podia estar acontecendo ainda, rs)! E assim, relaxei os esfíncteres...por 1 segundo e já travei de novo! “O-oh, é ele nascendo mesmo”, constatei, e pensei “tenho é que sair daqui, meu filho não vai nascer na privada!!!!”! Sim, todos esses pensamentos em meio segundo! Pela terceira vez no dia, quis subir um desespero em mim, soltei a frase: “ajuda aqui que ta nascendo!!!” e vi num pulo só meu pai e meu marido se materializarem dentro do banheiro, com cara de “HÃ?!?!?!?!”! Então botei a mão, e percebi o canal de parto dilatado (ou seja, a cabeça já estava ali), deixei o short terminar de cair pela perna e agachei de cócoras no chão, no passo mais largo que consegui dar pra longe do vaso!

À partir dali, tudo ficou tão mais sereno ainda, tão seguro, tão aconchegante, tão despreocupado! Era essa a sensação em mim! Vi meu pai e meu marido sem saberem o que fazer, meu pai perguntando “o que eu faço?”, “pego uma toalha?” “onde posso pegar uma?” e o marido pegando meu celular, ligando para a parteira... e se eu tivesse condições de falar, queria explicar calmamente a eles que não havia mais o que ser feito, que não tinham com o que se preocupar, que estava tudo bem, tudo ótimo, queria pedir para se acalmarem e tentar dar apoio mostrando que tudo iria dar certo, queria explicar tudo isso, mas queria também curtir meu brevíssimo momento... pensava que queria estar registrando tudo, filmando, fotografando, pensava principalmente (e sabia) que ali TUDO dependia de mim, só dependia de mim, do meu autocontrole, que não adiantava eu surtar e não aproveitar aquele momento sublime, que tudo o que eu sabia ou tinha aprendido, colocaria em prática, que eu era a pessoa mais apta a agir ali ou em qualquer intercorrência que houvesse, mas sentindo uma segurança das entranhas de que nada errado aconteceria (meu corpo me confirmava isso, a natureza me contava isso, uma força maior e incrível acontecendo, um sentimento que o Universo está conspirando a favor!)...  e tudo que falei foi “pode pegar essa aí”, olhando pra minha toalha de banho rosa que estava pendurada no box! Meu pai lançou a toalha no chão! 

Eu sentia com a mão direita a cabeça do meu filho coroando, com o braço esquerdo eu me apoiava na paredinha que encostei as minhas costas! E na hora senti que era cabeludo! Lindo! E vim mantendo a mão, tentando amparar meu períneo (com receio de lacerações), mas a posição era difícil pra me alcançar. Nessa primeira contração tinha nascido a cabeça, meu marido informa à parteira pelo telefone “saiu a cabeça!” e ela quase surta do outro lado da linha! Passei a mão contornando o pescocinho do bebê, procurando por alguma circular de cordão.. não tinha nada.. Esse intervalo (rapidíssimo) entre uma contração e outra foi o momento mais Divino, eu tirei a mão dele e apoiei os dois cotovelos na paredinha, olhei pra cima como se olhasse pro céu, sorri, senti uma felicidade suprema, e (não lembro se cheguei a verbalizar baixinho ou se só pensei) disse sorrindo sozinha, tããão serena “vem, vem meu amor, pode vir..”, e veio uma próxima contração, senti o círculo de fogo e vim sentindo os ombrinhos passarem, e o corpinho veio saindo, meu pai e meu marido botaram as quatro mãos embaixo por precaução, com medo que elezinho caísse no chão (mas respeitavam em não tocar nele, não intervir em nada),  e eu o segurei com as duas mãos (fiquei apoiada só com as costas na perede e os pés no chão acocorada, ele terminando de sair de mim e eu o trazendo direto pro meu colo)! 

Momento surreal! Tinha simplesmente acontecido! Sem dor, sem grito, num silêncio tão absoluto, que meu banheiro divide porta com o quarto da minha avó também (e ela estava no quarto), e ela nem desconfiou que alguma coisa estava acontecendo, muito menos um parto, rs! E ele veio ao mundo no mesmo clima, tão sereno, não chorou, apenas olhou pra mim respirando normalmente e eu o abracei! Minha filhinha, estava na porta do banheiro olhando, e disse “mamãe, neném!!”. Tem alegria maior? Minha primeira frase, ainda sem mudar de posição foi (olhando pro marido): “Ah, não! Tira uma foto!” kkkkkk! Eu queria que queria ter registrado!


E foi isso, isso TUDO em tão pouco tempo do relógio.. às 10:50h já tinha nascido!!! E então pedi gorrinho e paninho pra aquecer o bebê, dei as coordenadas de onde eu tinha guardado, minha filha pegou uma blusinha delezinho na gaveta, veio até mim, botou na frente dele e disse: “mamãe, põe neném” (coisa mais linda ela já cuidando do irmãozinho! Um cuidado, uma primeira relação linda entre eles, de emocionar e matar de felicidade e orgulho qualquer mãe!!!)! 

Marido ligou para parteira e contou que tinha terminado de nascer e estava tudo bem! Meus sobrinhos, minha mãe e minha vó vieram ao quarto e viram que tinha nascido, todos surpresos, mas ninguém tão abismado assim, todos felizes, e começou a sessão de fotos! Dali pra frente fotos pra chuchu, rs! Pedi que forrasse a cama com a outra lona plástica e um lençol que eu tinha separado pra sujar, e migrei do banheiro pra lá pra aguardar a dequitação da placenta!
Em seguida, a parteira chegou, rindo já, falando “só você mesmo”, e eu rindo também, me vendo sentada na cama com meu bebê no colo, com o cordão umbilical pendurado, assimilando ainda que tinha mesmo acontecido! Foi tudo muito real, não teve nada de surreal, mas foi muito rápido! E o bebê começou a mamar, o cordão pulsando ainda, eu mesma conferi, e ali ficou mamando, até dequitar a placenta, e continuou mamando. Depois chegou a doula também e a parteira clampeou o cordão, marido cortou o cordão! Depois chegou a outra parteira que também é da equipe e estava a caminho.

Tudo muito bom, tudo muito lindo, fugindo dos planos iniciais, mas sendo do jeito que a natureza quis, com o universo conspirando a favor, com o instinto de mamífera aflorando na pele, com o corpo fazendo perfeitamente o que o corpo feminino foi “construído” pra fazer: parindo! Naturalmente! Totalmente natural! Sem intervenção, sem toque, sem descolamento de membrana, sem ruptura artificial da bolsa, sem ocitocinas sintéticas, nem analgesias ou anestésicos, sem cortes na musculatura do períneo, de modo totalmente ativo, obedecendo o pedido de cada movimento do corpo, tudo numa sintonia tão bonita, como uma canção bem harmoniosa, sem nenhum tipo de medicamento pós parto (nada de Methergin, novalgina, nem paracetamol), nada de cintas ou soutiens de amamentação recheados com conchas coletoras de leite! NADA de artifício, nada de artificial, nem antes, nem durante, nem depois do parto! SÓ a natureza e nada mais agindo! Simplesmente, sabemos parir! A natureza é linda, perfeita! E o parto, é o mais puro milagre da vida, Divino! 

O parto é das mulheres! Acho que não preciso dizer mais nada ;)

BjoS!!!

Mais sobre a violência obstétrica

Recentemente traduzi um vídeo sobre a violência obstétrica e gostaria de compartilhar com vocês:

 

Você sabe o que é a violência obstétrica?
É um tipo de violência que só sofre quem é mulher e está para dar a luz.
Há muitos casos deste tipo de violência, mas pouquíssimos são devidamente denunciados. Talvez pela mulher não saber que sofreu de fato uma violência, ou por ter medo de que a tratem mal numa próxima vez. Ou ainda por pensar que se está tudo bem com o bebê e com ela melhor é curtir o nascimento do filho e seguir em frente.
Mas cada vez que seguimos em frente sem denunciar estamos colaborando para que isso seja feito com outras mulheres.
Denuncie!
Aqui no blog da Adele Doula você pode encontrar vários meios de denunciar!

BjoS!




sexta-feira, 18 de maio de 2012

O medo do parto

Você tem medo do parto?
Já parou pra pensar o motivo do medo?

Eu nunca tive medo de parir. Talvez por ser algo normal na minha família as mulheres não terem feito cesáreas (quando digo família minha mãe e avós). Mesmo lá com 16 anos quando tive meu primeiro filho eu tinha mais medo de como eu conseguiria cuidar de um bebê do que do parto em si. Quando entrei em trabalho de parto já com contrações de 5 em 5 minutos eu falava para o meu marido que eu não queria ir para o hospital. Ele me respondeu:
- Eu não sei fazer parto, vamos morrer "tudo" abraçado aqui!
Parei pra pensar que não era caso de morte. Muito pelo contrário! Eu não estava doente. Estava tudo bem com meu corpo funcionando direitinho e em ritmo inclusive. Mandei o medo ir catar coquinho e decidi ir para o hospital. Se não estivesse em trabalho de parto certamente me mandariam voltar pra casa. Eu estava muito tranquila. O médico me examinou e eu estava com 8cm de dilatação com contrações e não estava com dor, não a dor que todo mundo me falava que eu ia sentir. Eu lembro de ter visto sangue no absorvente que o médico me deu depois do exame de toque e de me assustar um pouco e pensar que agora não tinha mais volta (como se tivesse antes kkk)! Eu ia me tornar mãe. 
Muitas vezes o medo que carregamos para o parto não é da dor. Podemos até disfarçar ele como se fosse apenas o medo da dor. Ele pode ser o medo do desconhecido, do que será da nossa vida que estava tão organizada ou já tão bagunçada com mais uma pessoa totalmente dependente para cuidar. Uma angústia não saber cuidar de um bebê sozinha. Ou ainda não saber como dividir o amor entre dois filhos. O medo de não conseguir, de não ter forças, de acabar tudo em uma cesárea.
É importante detectar a origem do nosso medo para ir para o parto sem a tensão que o medo provoca. Quanto mais medo temos o nosso corpo responde com mais tensão e quanto mais tensão mais dor.

Pode parece mais fácil agendar logo a cesárea e nem ter que pensar nessas questões. Mas isso acaba aparecendo de uma maneira ou de outra depois do parto. Não faz bem ignorar nossos sentimentos.

Por mais que seja difícil tente não dar ouvidos a quem não tem coisas boas para desejar sobre o seu parto. Geralmente as pessoas temem o que não conhecem. E nem deveriam falar do que não conhecem mas falam justamente porque tem medo! Eu tenho medo de brinquedos de parque de diversões e a minha tendência mesmo que disfarçada é sempre desencorajar meus filhos de irem a algum desses parques. É natural querer proteger quem a gente ama até dos nossos medos, mas não é justo. Então eu deixo o meu medo de lado (dou uma olhada básica na segurança do brinquedo) e libero eles para seguirem livres sem os meus medos.

Para não ir tensa para o parto eu posso te dar os seguintes conselhos:
Procure um profissional humanizado ou que tenha alguma referência em ter acompanhado partos naturais e respeitado as escolhas da gestante.
Converse com sua doula sobre isso. Pode ser de grande ajuda para o momento do parto! Ela estará não só como um apoio físico mas também emocional. Muitas vezes o parceiro não compreende alguns aspectos emocionais que acompanham a gestação. Conversar com a doula pode até ajudar você a expor melhor isso para seu parceiro.
Tente se cercar de pessoas que entendam o seu desejo de ter um parto normal. Frequente grupos de apoio ao parto normal, natural e ativo. 
Procure grupos na internet que tenham o mesmo propósito. (Vou colocar alguns links na barra lateral.) 
Leia relatos de parto. Isso ajuda muito! O nosso cérebro é incrível. Quando pulamos em uma piscina por exemplo, pensamos no pulo e no mergulho antes mesmo de pular. Imaginamos como será o pulo e só então pulamos. Ler os relatos é condicionar o cérebro ao momento do parto.
Se sente que vai precisar, procure ajuda especializada. Aqui em Londrina temos a Márcia Sel. Psicoterapeuta que trabalha com gestantes.
E principalmente dê ouvidos ao seu desejo e capacidade de parir. O parto é seu, a experiência é sua. Não deixe o medo de outras pessoas te contaminar e não alimente seu medo.

Até mais!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Videoteca - Born in Brazil | Nascido no Brasil

Hoje vou começar a colocar aqui no blog uma seção só com vídeos (ou trailers de vídeos) que eu acho importante para quem está buscando um parto humanizado e ativo assistir.

Vou começar com alguns trechos do documentário Born in Brazil - Nascido no Brasil de Carla Biasucci.

Nascido no Brasil explora o que as mulheres realmente querem. O documentário acompanha cinco mulheres grávidas em Porto Alegre, uma cidade cosmopolita industrial no sul do Brasil. Relatos tocantes e bem-humorados do parto destas mulheres e seus médicos revelam as pressões sutis que estimulam o abuso grave de cesarianas no Brasil.
Nascido no Brasil explora as pressões da sociedade moderna e como somos influenciados pela nossa dependência da tecnologia e pelo medo do imprevisível na hora do parto. O documentário desafia a crença predominante que a cesárea é a forma moderna e indolor para dar à luz.


Fonte: http://imaginingourselves.imow.org/pb/Story.aspx?id=1028&lang=1


Até mais!!!



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Parto Humanizado no Vitrine Revista da TV Tarobá

Eu estive junto com a Ana Carolina Franzon (Blog Parto no Brasil), a Fernanda Rocha (mãe GestaLondrina) e a Enfermeira Liane no Programa Vitrine Revista comandado pela Julie Bicas AO VIVO falando sobre parto natural, parto na água, parto em casa, sem anestesia e tudo mais :).

Confiram os vídeos:

Vídeo 1


Vídeo 2



Foi muito gostoso participar do programa!

Até mais!